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sábado, 29 de março de 2008

MEU ANIVERSÁRIO E A REVOLUÇÃO

Faço aniversário dia 29 de março. Com isto consigo me lembrar de coisas relacionadas com esta data.
Na minha família sempre houve políticos. Meu pai era prócer do PTB, do antigo, do original. Portanto era um homem de esquerda, pelo menos filosoficamente e ideologicamente. Para outras coisas ele era um fidalgo, um aristocrata, um homem do Iluminismo.
Portanto, discussões sobre eleições, partidos, pontos de vistas, sempre fizeram parte do meu dia a dia.
Em janeiro de 64, a bordo de um SIMCA CHAMBORD, três andorinhas
(Quem viveu naquela época sabe do que estou falando.), fizemos uma viagem que, hoje me dou conta, foi colossal.
Saímos de Livramento e fomos, Porto Alegre, Lages, Curitiba, São Paulo, Santos, cidades históricas de Minas, Belo Horizonte, Muriaé, duas ou três cidadezinhas à beira da estrada até Vitória da Conquista, Salvador, interior da Bahia e Pernambuco, João Pessoa, Recife, Maceió, Aracaju, Salvador, Rio/Bahia, Volta Redonda, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e, por ironia do destino, no entroncamento Livramento/Rosário/D.Pedrito, a trinta km de Livramento, o carro enguiçou. Mas chegamos.
Na época, a perspectiva da eleição marcada para 65 empolgava. Em tudo que era morro, muro, pouco se usava outdoors e painéis, estavam escrito o JK 65 e o CL 65. Ou seja, Juscelino e Carlos Lacerda. O Construtor, o Homem do Progresso, versus o Corvo, o Homem que matou o Getúlio.
Nós éramos juscelinistas de carteirinha.
A briga ideológica era furiosa. De um lado uma direita que ameaçava com o risco dos-comunistas-comedores-de-criancinhas. Com o Paredón, pois Castro tomara o poder há pouco tempo e neste breve período de tempo mandara fuzilar mais gente do que o Fulgêncio Batista durante a sua ditadura. Os milhares de cubano que começaram a fugir para Miami serviam para assustar todas as Direitas possíveis. Uma piada da época dizia que os tubarões do Caribe nunca estiveram tão gordos por conta dos banquetes que faziam. De outro, uma Esquerda que gritava contra as injustiças sociais, com a necessidade de grandes mudanças sociais que eles fariam. Que nem hoje, só que na época eu acreditava nos esquerdistas. Os da Direita eu não acreditava há um bom tempo. Via-os como egoístas, reacionários, os beneficiários das grandes falcatruas da época.
Naquele ano eu fazia 15 anos.
Não fizemos uma grande festa. Apenas primos e tios. Um primo me emprestou um casaco e eu o usei com gravata. Acho que foi a primeira vez na vida que usei este tipo de vestuário. Talvez fosse um sinal de que eu estaria entrando em uma nova época. Mal sabia eu que o Brasil também.

Ainda estávamos empolgados com o “sucesso” do Comício da Central do Brasil, onde o Jango anunciara as reformas de base que pareciam abrir uma nova fase nas relações sociais do Brasil.
Prestes anunciava aos quatro ventos que, se a Direita ousasse por a cabeça para fora, seria para ser decapitada. Brizola, Miguel Arraes, Francisco Julião, quais Chavez e Evos Morales, nos diziam que o futuro era um só. Ver a grande vitória do Socialismo e ir ao enterro do Capitalismo.
E eu acreditava... E eu acreditava neles...
Dia 31, ao cair da tarde, eu chegava em casa após haver ido comprar pão, de carro. Velhos tempos aqueles em que a vida era simples e que um guri de 15 anos dirigir não era visto como problema, pelo menos nas cidades do interior. Meu pai estava na frente de casa. Não lembro o que eu disse para ele. Mas ele respondeu. –Parece que as coisas estão feias lá em cima. O dia 1, em Livramento, teve aquela calma que antecede os temporais. No dia depois a procela desencadeou de vez. Depois de dois, ou três dias, para meu desgosto de guri, não havia mais resistência prática e tudo voltou ao normal, por normal entenda-se volta às aulas. Na época da Legalidade tivéramos quase 15 dias de férias, o que eu achara uma maravilha.
Castelo Branco tomava posse. Os nossos heróis haviam sido absolutamente incompetentes em
prever e resistir ao golpe. Rivera se encheu de exilados políticos. Estes copiavam a sociedade capitalista. Havia os ricos e os pobres. E os ricos não ajudavam os pobres. Igualzinho ao que a direita reacionária fazia. E eles se reuniam nos bares e planejavam contra revoluções que nunca se concretizaram. . Todos eles diziam que, quando voltassem, não só a Direita iria pagar por tudo que fizera com eles, como também iriam se recompensar pelo que estavam sofrendo. Foi neste momento que colocaram a última pá de cal nas minhas crenças na esquerda
A Direita não pagou, a não ser, talvez, um, ou outro, bode expiatório. Mas nós, classe média e trabalhadores em geral, é que pagamos, e continuamos pagando pelas mazelas que eles passaram.
Esta foi a minha entrada no mundo dos adultos. Só faltava o SEXO, mas este veio logo depois, e acho que ajudou a compensar tudo o mais.