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terça-feira, 10 de março de 2009

EU (quase) NOS SESSENTA E O GENERAL DO EXÉRCITO MORTO - Parte III

Hoje não estamos mais com um pé na cova; trabalhamos, transamos, viajamos, praticamos esportes, dançamos, namoramos, dentro dos limites físicos possíveis e da aceitação dos demais.
Não me sinto um velho, não me sinto triste ou revoltado por fazer sessenta anos. Mas não deixo de enfrentar os meus conflitos internos. Tenho partes, setores, aspectos, que têm 12, 18, 30, 40, 50, 60, 70 anos e por aí vai. E às vezes há brigas feias. Das de tiro e punhalada. Conflitos generalizados ocorrem de tempos em tempos. Em geral criados pelos setores mais jovens, que não aceitam as limitações dos mais velhos, que lhes acabam impondo limitações de vez que são todos eles interligados como gêmeos siameses. Eu me vejo, ao recordar, recolhendo corpos, ou sentimentos, que um dia foram vivos e que hoje, cobertos pela pátina dos tempos, são quase que irreconhecíveis. Mas que um dia foram vivos, palpitantes, despertadores de emoções e sentimentos.
segue

segunda-feira, 9 de março de 2009

Eu (quase) sexagerário e o General do Exército Morto - Parte II

Um dos seus livros se chama “O General do Exército Morto”. Nele, um general alemão, do pós-guerra (Tem hífen? Não tem hífen? Ó dúvidas cruéis!) recebe a incumbência de ir até a Albânia para buscar os corpos dos soldados alemães que ali tombaram durante a Segunda Guerra Mundial. O livro conta a sua Odisséia no cumprimento da tarefa, ao mesmo tempo em que esboça um pouco de tudo que se passou ao longo do conflito. Vai encontrando os corpos e prepara-os para serem repatriados. Mas aqueles cadáveres têm pouco significado para ele. Em pouco tempo está louco de vontade de terminar a sua missão. Mas sempre ocorre algo que o leva a prosseguir um pouco mais.
Em breve estarei fazendo sessenta anos. É inevitável que eu pense um pouco a respeito deste fato. Não se trata nem da constatação que eu cheguei lá, ou de que estou ficando velho. Poupem-me de tais bisonhices.
Também não vou querer passar a idéia de que tal efeméride passa em brancas nuvens pela minha mente. Sou de uma época em que aos sessenta se virava um sexagenário. Ou seja, alguém a beira da decrepitude.

“O sexagenário ao descer do bonde tropeçou e teve de ser levado pela Assistência Pública ao mais próximo nosocômio para ser atendido pelo facultativo de plantão!”
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domingo, 8 de março de 2009

EU (quase) SESSENTÃO E O GENERAL DO EXÉRCITO MORTO

Sou fã de um escritor albanês chamado ISMAIL KADARÉ. Escreveu sob uma das mais rígidas ditaduras que se tem notícia, a de Enver Hoxha, que dominou tirânica e absolutamente a Albânia de 1944 até a sua morte em 1985. Aos incautos de plantão Hoxha vendia a idéia de que a Albânia era um modelo a ser seguido. O mais perfeito socialismo, com todas as suas vantagens, era ali que vicejava. A Albânia vivia isolada do mundo. A Albânia vivia ameaçada por um mundo que a invejava e que por isto a queria destruir. Quem lê Ismail tem a impressão que ele escreve a respeito disto. Em realidade sempre escreveu sobre ele e sobre pessoas como ele que sentiam a necessidade intrínseca de sobreviver como indivíduos dentro de um contexto social, mas tendo direito a sua individualidade. Não queria ser sufocado pelo coletivismo, que não hesitava inclusive em matar, se necessário fosse, para abafar qualquer coisa que se assemelhasse a uma aspiração pessoal.Conheci-o através do livro Os Tambores da Chuva. Depois vieram muitos outros.
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