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sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

UM TIRO NO PÉ

Em 1982, no embalo da Abertura, a censura foi perdendo força.
Como os nossos valientes de después podiam ser loucos, mas não eram bobos, no cinema exploraram primeiro a área sexual. Mas tentando dar a ela uma aparência de séria, daí um filme do Walter Hugo Khouri, que se baseava no que ocorreria em um cabaré de luxo de Belo Horizonte, onde estava o governador mineiro da época, que era um dos candidatos a presidência da república naquele ano de 1937. Nesta noite Getúlio dá o golpe do Estado Novo.
Mas o que ocorria naquela casa de tolerância? Havia sido importada uma virgem, a Xuxa, que seria servida pela dona do estabelecimento, Vera Fischer, ao governador, Tarcisio Meira. Ou seja, um filme daqueles que se apresentava como tendo um grande elenco, uma história que não tinha coragem de ser pornográfica, que não chegava nem a ser erótica e que fantasiava ser um drama histórico, em que a realidade e a ficção faziam uma orgia.
Pois bem, a Xuxa se tornou a rainha dos baixinhos, uma das figuras emblemáticas da Globo, um exemplo de postura moral.

O problema todo é que o tal filme, que não foi nenhum sucesso, seu único mérito foi mostrar a Xuxa pelada, e que já estava nas prateleiras do arquivo morto, tinha uma cena de pedofilia que a moça participava junto a um menino de 12 anos. É interessante a gente se dar conta que os moralistas de plantão da época, fora uns balbucios agônicos, quase protocolares, não se manifestaram mais enfaticamente.
Pois agora, frente à possibilidade de ser relançado o filme, em virtude do lançamento da autobiografia do menino, a Xuxa entra na justiça para retirar o filme de circulação.
Nada mais justo. Alguém faz algo que se expõe no passado, na juventude, depois se arrepende e tenta concertar. O problema é que vivemos em tempos de Internet. Bastou falar em proibição e lá está o fato em milhares de sites, da noite para o dia. O tal relançamento, que ficaria restrito a
meia dúzia de gatos pingados, saudosistas, ou curiosos, passou a ter uma divulgação enorme.
Procurando por imagens de “filme pornográfico”, ou “filmes pornográficos” no Google, para escrever o artigo “O CINEASTA”, encontrei várias imagens do filme da Xuxa.
Agora vos pergunto? Não acham que ela deu um tiro no pé?
Continuo a favor da tese que é melhor deixar os mortos descansarem. Principalmente por conta do próprio morto.
Não teria sido mais justo, valorizante, para a Xuxa deixar tudo como estava e poder dizer de cabeça erguida:
-Eu já fui assim, agora não sou mais!
Mostrando que é uma pessoa que não tem, ou teve, medo de evoluir.

O CINEASTA

Alguns anos atrás conheci J. ; trabalhava com cinema.
Não era ninguém muito famoso, não fazia grandes produções, não tinha grandes patrocinadores, ou dinheiro para fazer filmes mais sofisticados.
Um dia descobriu a sua mina de ouro.
Fazer filmes pornô!
Fáceis de fazer, não requeriam grandes roteiros, direção, make-up’s, locações.
Filmes pornográficos eram a coisa mais próxima da idealização “uma idéia na cabeça e uma câmera na mão”, que se poderia ter.
Mas, me explicava ele, tinha também os seus segredos.
Quem vende o filme é a mulher. Tem que ser do tipo gostosa, meio vulgar, mas metida a chic, topa todas, mas tem que fazer biquinho, tem que saber gemer, gritar de prazer, dizer alguns palavrões e elogiar o pinto do cara.
Mas o difícil era achar o(s) homem(ns). Tinha de arranjar um cara com uma estrovenga acima da média (18 cm de comprimento, no mínimo, e grosso o suficiente para se fazer notar.), que fizesse uma ereção com facilidade (com ou sem remédios), não fosse muito feio ou desmilinguido de corpo e não fosse nem excessivamente branco, ou preto.
Porque deste detalhe?
Como quase ninguém agüenta aquela maratona de posições, e gritos, e tempo, sem brochar ou gozar, tinham que ter uns extras para os closes. Nos planos gerais não havia problema, bastava pegar um ângulo em que o pau não aparecesse, mas no close ele tinha de estar bem duro (Os homens, dizia ele, e eu assino embaixo, adoram pau duro.).
Então, sentados num banquinho ao lado do set de filmagens, tinha sempre um, ou mais homens, se masturbando para estarem prontos para o caso de terem que entrar em ação.
Por isto, a cor da pele do bicho velho, do artista principal, não poderia ser de uma cor difícil de ser achada. Um branco mais moreno, ou pardo, era o ideal.
Com o passar do tempo os filmes ficaram mais difíceis de serem feitos.
No início o enredo era simplório.

Por exemplo. O marido saia de casa (Sempre tem de ter um chifrudo.) e entrava o leiteiro, sem preliminares nem nada, que isto é frescura para a turma masculina que vê filmes pornô, e já partia para os finalmentes. Estavam ali no bem bom e chegava o padeiro, e já entrava na festa. Ou uma vizinha, ou mais outro homem. Às vezes até o marido que retornava de inopino.
Mas esta fórmula cansou. E aí tiveram de começar a sofisticar o roteiro. E bota posição diferente, lugar bizarro, acessórios, dois paus na boceta, e por aí vamos.
Mas continuou a piorar (para os cineastas), por conta da diversidade.
E entra o homossexualismo masculino (O feminino era aceito desde o início, não era, segundo a ótica do espectador, homossexualismo, era sacanagem mesmo.), e entra o travesti, e entra a mulher com dildo para fazer o papel de homem, lá pelas tantas entra a zoofilia, e dá-le dobermans, , pastores, outras raças e espécies, até muares e eqüinos.
E dá-lhe sado-masoquismo, escatologia, até uma pedofilia “legal” (Atrizes maiores de idade, mas com rosto de criança, ou adolescente, caracterizadas e maquiadas de uma maneira infantilóide.).
Enfim, a vida não está fácil para ninguém, inclusive para cineastas de filmes pornôs.