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domingo, 29 de agosto de 2010

E A BALEIA MORREU, ou vá se entender os desígnios das baleias, dos homens ou de Deus...

Pois é, a baleia morreu.
Ela encalhou na praia.
Um grupo de voluntários, IBAMA, etc. e tal, foram lá para salvá-la.

Depois de muito esforço, com o auxílio de um rebocador, conseguiram desencalhá-la e transportá-la para águas mais profundas.
A baleia voltou a praia.
Voltou a encalhar.
Morreu.
Fico pensando se esta baleia não tinha ido para a praia para morrer.
No que pode haver sofrido até morrer.
Penso nos suicidas.
Não nos loucos que se suicidam.
Imagino aqueles que, desiludidos da vida, depois de a haverem vivido, resolvem morrer. Ou para fugirem de uma dor, ou sofrimento outro, intenso, sem maiores perspectivas, querem morrer.
E nos que não os deixam ir.
Será que eles não fazem isto em causa própria?
Pelo seu medo de morrer. Pelo seu medo de enfrentar O Outro Lado.
Então não deixam ninguém morrer em paz, do jeito que queriam morrer.
“É a vontade de Deus!”
Quem diz que esta é a vontade de Deus?
“Está escrito!”
-Sim, mas quem escreveu? Um homem que diz que Deus disse? E se Deus disse o inverso e este homem, rebelde, escreveu o contrário. E se este homem fosse um alucinado?
É tão complexa a mente que tudo que se disser dela é mera especulação.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A Tragédia de Medéia É Possível

Quando alguém me diz que acha inacreditável e me pede que eu explique porque um pai, aqui em Porto Alegre, matou os três filhos e depois se suicidou; para vingar-se da mulher que queria separar-se dele e que teria uma vida no Inferno, depois disto, respondo.
Porque ele estava louco e a loucura tem uma lógica diferente da dita sanidade. Aliás, meu amigo Paulo Burd já me havia alertado de que na tragédia de Eurípides – Medeia, a personagem Medeia mata os filhos para vingar-se do esposo Jasão que a havia traído. Mas ela teve que carregar esta responsabilidade (Na antiguidade grega o conceito culpa não existia, existia era o conceito de ser responsável. O conceito culpa vem dos textos bíblicos.) pelo resto da sua vida.
No caso presente, o assassino se exime desta culpa suicidando-se. Duvido que o fizesse por culpa, ou remorso.
O que me chama a atenção é que, tanto Medéia, como este homem, eram loucos, mas plenamente conscientes do que estavam fazendo.
Por isto me irrita quando, na maior parte das vezes, se trata na justiça, na nossa justiça, um louco, um tarado, como um não responsável ou quase não responsável, por ser louco.

Na justiça americana se avalia se o sujeito é louco, mas também se ele é, ou não, consciente de seus atos. O mesmo se aplica no caso de menores. Felizmente parece que lentamente estamos mudando os nossos conceitos.
Pois, quando alguém descobre uma brecha, pode se estar certo, é por ali que os ratos vão se enfiar.

sábado, 6 de junho de 2009

DAS TOD - DAVID CARRADINE

Bueno, apesar de tudo, deve ter morrido sentindo prazer.
Talvez uma morte mais agradável do que "morrer de velho", cheio de dores e dos outros achaques que costumam acompanhar a chegada da Velha Senhora.
Não que com isto esteja a recomendar a prática do prazer pela sufocação, nem outras ligadas ao sofrimento, ou a lesões. Nem como método de suicídio.
Que aliás defendo como um direito para quem está lúcido, consciente, coerente e que, ao examinar o que lhe resta de vida e o seu momentum, chega a conclusão que é o melhor para si.
O curioso é que ao escrever este bilhete liguei no canal de músicas da NET, nas "clássicas"; estava tocando a Marcha Funebre, OP 35 do Chopin. Que para mim é uma das obras primas musicais.
Meu pai, que gostava de música, que entendia de música, dizia que era a mais bela encenação musical do fenômeno da morte para os que ficam.
O momento da dor, os momentos de nostalgia, os de alienação, aqueles em que o pensamento vaga alhures, e, finalmente, aquele da despedida.
Do "nunca mais..."

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

O BISPO, O RIO, A CHANTAGEM

Não entendo de rios e de transposições de rios. Portanto, não é sobre isto que me proponho a escrever.
Embora motivado por fatos da atualidade, me interesso é por um assunto extemporâneo.
Não sou nem a favor, nem contra a tal transposição do rio São Francisco, mesmo que me digam que uma obra deste porte servirá para grandes roubalheiras.
Num país como o nosso sempre haverá grandes obras que criarão oportunidades para os que querem se locupletar. Portanto, se não for nesta, será numa outra qualquer. Os nossos fazedores de fortunas espúrias são criar e aproveitar as mais diversas circunstâncias. Competência é o que não lhes falta.
Vou escrever é sobre uma coisa que me incomoda profundamente.
A chantagem, a prepotência, dos que querem manejar os outros pela sensação de culpa.
Por mais que o Bispo tenha razão, o modo como ele tenta impor o seu ponto de vista é espúrio. E, se for apenas para chamar a atenção dos demais, pior ainda. Existem outras maneiras de defender o seu ponto de vista que não seja este. A História que o diga.
Numa peça que assisti, quando entrava nos meus 20’s, anunciam o suicídio de uma pessoa. A atriz, acho que a Fernanda Montenegro, na sua fala diz:
-Tenho nojo dos suicidas!
Só não digo a mesma frase por conta de que evito as generalizações. Entendo o desejo, o ato, nas crianças e adolescentes que são movidos por impulsos. Entendo a atitude nos que padecem de dores fortes e incuráveis. Entendo nos velhos, que vêem a vida se desvanecer, sem nenhuma perspectiva. Até entendo, mas aí como psiquiatra, naqueles que usam a ameaça como uma forma de pedir socorro.
Mas o modo como o Bispo age é para que nós fiquemos responsáveis pela vida dele. Se algo ocorrer a ele, o Governo é que será o culpado (Longe de eu estar defendendo o governo Lula.).
Ao Governo nada mais resta que uma rendição incondicional. Ou ter de enfrentar o risco de, morrendo o dito Ministro de Deus (?), ter a opinião pública contra si, de vez que esta adora uma pobre vítima do cruel destino.
Um ótimo meio de lidar com este tipo de chantagista, é não dar importância ao seu ato e deixá-lo responsável pela sua vida.
Dizem que após a cassação do Carlos Lacerda, este, descontente com os rumos que a revolução estava tendo, entrou em greve de fome. Depois de alguns dias um amigo foi visitá-lo no hospital, entrou no quarto e disse:
-Ô Carlos, para com esta frescura. É verão, tá todo mundo na praia, ninguém tá dando bola pra ti. Tu não tá no país de Hamlet, tu tá na terra do Macunaíma!
A greve de fome acabou no mesmo dia.

Adendo:

Evidenment não estou falando daqueles que por um dos azares da vida tem os seus níveis de serotonina muito baixo. Estava me referindo aos que usam este mecanismo para dominarem os outros à sua vontade.Sei que na depressão verdadeira (ou algumas outras patologias psíquicas) o suicídio muitas vezes parece ser a melhor solução e que isto tem de ser tratado. Para isto eu existo.